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2 de março de 2024

De imediato muitos educadores, com base em uma análise a priori, responderiam a essa pergunta com um categórico sim! Sem a aquisição do letramento alfabético não seria possível se adquirir o letramento digital. Provavelmente, este teria sido o mesmo posicionamento de quem defendia que não seria possível ser letrado sem ser alfabetizado.

Contudo, as pesquisas científicas nacionais e internacionais já provaram que tais fenômenos de aprendizagem não podem ser tratados como constructos estanques e sem escalas. Há de se considerar uma multiplicidade de fatores condicionantes para que certas aprendizagens aconteçam e se consolidem no intricado aparato mental-fisio-biológico do ser humano. Há graus de letramento que as pessoas podem adquirir sem mesmo dominar o alfabeto, pois os fatores cognitivos e emocionais envolvidos na construção de sentido transcendem ao importante, mas não exclusivo, processamento da linguagem verbal escrita.

Para exemplificar, trago à discussão duas pesquisas de doutorado que orientei. Ambas em Linguística Aplicada ao ensino de línguas com suporte tecnológico. A primeira foi realizada pela pesquisadora, Flávia Botelho, docente do Instituto Federal de Cuiabá – MT, cuja tese recebeu o título “A construção do letramento digital em crianças em fase de alfabetização”. Os sujeitos analisados foram selecionados em duas escolas, uma da rede pública, Escola Municipal Engenheiro Umberto Gondim, e outra da rede particular, Colégio Apoio do Recife. Ambas as  instituições ofereciam equipamentos tecnológicos e permitiam o acesso e manuseio pelas crianças ainda não alfabetizadas. O estudo longitudinal foi auxiliado pelas respectivas professoras dos sujeitos, que compartilhavam com a pesquisadora dados de desempenho das crianças observadas. A pesquisa coletou e analisou dados de 4 sujeitos em um período de 2 anos. Fatores socioeconômicos dos sujeitos como acessar computador em casa, escola ou na casa de amigos, usar jogos digitais ou navegar na internet com ou sem supervisão de adultos foram considerados. Os sujeitos foram categorizados em 4 perfis de usuários (errante, passageiro, navegante e guia) de acordo com a ordem crescente dos graus de letramento digital de cada um deles verificado em testes. A investigação constatou que as habilidades linguístico‐cognitivas envolvidas na aquisição do letramento digital entrelaçam‐se umas às outras, em uma perspectiva de continuum. Esta constatação permitiu concluir que a alfabetização tende a melhorar as interações das crianças com o ambiente hipermídia, auxiliando‐as a realizar com mais facilidade e segurança as atividades digitais. Porém, na ausência da alfabetização, outras linguagens são acionadas (como a visual, a sonoro) pelo alfabetizando, a fim de subsidiar a construção de sentido no ambiente tecnológico.

Outra tese que dialoga com esse debate é a do pesquisador Nestor Pinheiro, professor da rede pública de Caruaru, intitulada “O Papel estratégico dos jogos digitais no desenvolvimento da proficiência leitora em língua inglesa como língua estrangeira”. O pesquisador investigou a influência do hábito da leitura realizada em jogos digitais para o desenvolvimento da proficiência leitora em língua inglesa. Sua hipótese considerava que o desenvolvimento da habilidade leitora estaria relacionado à exposição à língua-alvo de forma lúdica e desafiadora como ocorre em sessões de jogos digitais sérios, ou seja, não criados com fins de aprendizagem. O pesquisador selecionou 5 sujeitos matriculados no ensino médio da rede  pública, sendo 2 com forte hábito de jogar on-line, 2 que jogavam esporadicamente e 1 sem qualquer experiência com jogos digitais. O pesquisador observou e descreveu as situações de interação desses adolescentes com os jogos digitais, o tempo de exposição aos jogos, a disposição dos textos nos respectivos ambientes digitais e as estratégias desenvolvidas pelos sujeitos para abordar os textos em língua inglesa que precisavam ser compreendidos para continuar o jogo com sucesso. Testes de avaliação do nível de leitura em língua inglesa foram aplicados antes, durante e depois das sessões de jogos analisados pelo pesquisador durante 8 meses. Ficou constatado que o engajamento dos sujeitos para atingir os objetivos propostos pelos jogos levou-os a desenvolver a habilidade leitora na língua inglesa por necessidade prática, ou seja, para solucionar uma situação-problema específica com fins delimitados. Essa necessidade propiciou um envolvimento instrucional, ativo e dinâmico dos sujeitos com a leitura em língua inglesa, o que permitiu concluir que a interação com jogos digitais pode ser um recurso pedagógico relevante para o desenvolvimento da proficiência leitora em uma língua adicional.

Portanto, as pesquisas indicam que os letramentos alfabético e digital interagem, colaboram e cooperam entre si para o aperfeiçoamento um do outro em um looping infinito. Em tempos de concomitância de Cultura Escrita + Cultura Digital, o dilema da causalidade ou da preeminência do ovo ou da galinha nos leva a aceitar a relevância de se trabalhar ambos simultaneamente, sob o risco de cometermos a injustiça de sonegar a quem tem um grau elementar de letramento digital, mas ainda não está alfabetizado, a oportunidade de consegui-lo pelo acesso a ambientes e ferramentas digitais.

Por: Antonio Carlos Xavier

Prof. Dr. Titular em Linguística na UFPE

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